SOL, MAR E LUCRO
Depois de superdimensionar o mercado paulistano, as redes hoteleiras elegem o Nordeste como destino de investimentos nos próximos anos.

Não é de hoje que, quando se fala do Nordeste brasileiro, o que vem à mente são as belas praias e o clima que faz a alegria dos turistas e dos vendedores de protetor solar o ano todo. Há aqueles que têm uma visão menos bucólica da região e se queixam dos meios de hospedagem precários, da deficiência no atendimento e da falta de infra-estrutura.

Alguns desses problemas ainda atrapalham a vida de turistas, empresários e a população. Mas nem por isso abalam o entusiasmo que a atividade turística no Nordeste tem conseguido despertar entre investidores e visitantes brasileiros e estrangeiros. Depois de uma pausa na euforia dos grupos hoteleiros, os investimentos no setor voltam a ganhar força. O Nordeste é a prioridade em quase todas as principais cadeias hoteleiras instaladas no Brasil.

A rede Atlantica Hotels, de origem norte-americana, acaba de inaugurar em Aracaju uma unidade hoteleira da bandeira Quality. Em outubro será aberto o primeiro hotel da empresa em Natal. A cadeia portuguesa Pestana já tem hotéis na região, mas quer ampliar a oferta. Os franceses da Accor Hotels também fazem prospecções para aumentar o número de unidades na região, assim como o Blue Tree. Sem esquecer, é claro, das redes internacionais recém-chegadas, como o Grupo Dorisol, de Portugal, que comprou recentemente o Esplanada Praia Hotel, em Fortaleza, por R$ 35 milhões e deve reinaugurar, em julho, o Dorisol Recife Grande Hotel, o antigo Sheraton.
Leo Caldas/Titular
Porto de galinhas.
A praia pernambucana é um dos principais alvos dos empresários
Uma das explicações para a retomada da atividade é a carência de bons hotéis na região que atendam ao aumento do fluxo de turistas. Devido aos problemas na economia brasileira, com o dinheiro curto e o dólar perto dos R$ 3, muitos dos brasileiros endinheirados tiveram de rever seus planos de viagem e se voltaram para o turismo interno. Os estrangeiros, por sua vez, também vêm descobrindo os estados nordestinos. Na maioria das vezes, desembarcam de vôos charter. A portuguesa TAP é a companhia aérea que mais traz europeus para o Nordeste.

Segundo dados divulgados recentemente pelo Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), o desembarque internacional de turistas no primeiro bimestre deste ano, comparado a 2003, aumentou 18,81% no Brasil. No Nordeste, o crescimento foi de 87,35%. Os números sobressaem ainda mais quando se referem à chegada de vôos charter na região. O aumento foi de 209,49% nos dois primeiros meses de 2004.

“O Nordeste é prioridade para o grupo”, diz Alberto Ribeiro, diretor de Desenvolvimento da Accor Hotels. Hoje, segundo o executivo, o melhor exemplo de destino turístico na região é a Bahia, que já oferece alguma infra-estrutura e serviços. Mas, segundo ele, ainda há muito o que melhorar.

O grupo francês já investiu R$ 25 milhões no Nordeste. Uma das formas encontradas para expandir os negócios é o sistema de conversão de bandeira para os donos de hotéis interessados na marca Mercure. Também foi lançada recentemente a franquia da bandeira Ibis. Assim, a empresa espera aumentar mais depressa o número de unidades hoteleiras no País.

Heloísa Prass, diretora de Marketing e Vendas do Grupo Blue Tree, também tem dedicado boa parte do tempo na prospecção de negócios no Nordeste. “O potencial é imenso e a região é prioritária no nosso plano de negócios para os próximos cinco anos. Trata-se de um produto turístico de altíssimo interesse dentro e fora do Brasil”, avalia a diretora. O grupo já tem hotéis no Recife, em Salvador e em Fortaleza, além de um resort no Cabo de Santo Agostinho (PE).

A diretora do Blue Tree está otimista em relação ao futuro na região, que já é responsável por 18% dos investimentos do grupo. Segundo ela, se o Brasil mantiver uma média de crescimento de 3% ao ano, “não haverá hotel suficiente no Nordeste”. Sem deixar de lembrar do número de estrangeiros que visitam estados como Bahia, Ceará e Pernambuco – os estados que mais têm investido na divulgação de seus atrativos fora do Brasil.

Segundo a executiva do Blue Tree, há muito o que se melhorar no turismo da região. As queixas mais freqüentes, segundo pesquisas feitas pelo governo federal e pelos estados, são quanto à falta de sinalização nas ruas e nos patrimônios, sujeira e a pouca informação para os visitantes. “Em compensação, o índice de satisfação dos nossos hóspedes em relação ao atendimento chega a 99% no Cabo de Santo Agostinho, por exemplo”, afirma Heloísa. Ela justifica a boa avaliação e lembra que o nordestino é conhecido por ser muito caloroso, o que cativa principalmente os estrangeiros.

Entre os portugueses do Grupo Pestana, o clima de entusiasmo com a região é o mesmo. A rede hoteleira já tem unidades em Natal e em Salvador. Na capital do Rio Grande do Norte, o forte é o atendimento a estrangeiros, especialmente de europeus – responsáveis por 70% das reservas. Já no hotel da capital baiana, focado em convenções, 80% dos hóspedes são brasileiros.
No momento, segundo Roberto Rotter, diretor de Operações do Pestana, o grupo avalia a possibilidade de construir uma unidade junto ao Convento do Carmo, em Salvador, no estilo das pousadas portuguesas. Outros projetos em prospecção são Itacaré (BA), Porto de Galinhas (PE) e Fortaleza, onde o grupo já tem um terreno. Desde que chegou, em 1999, até hoje, os investimentos somaram R$ 150 milhões.

Um dos atuais problemas da região, de acordo com o diretor do Pestana, é a malha aérea insuficiente para atender de forma adequada à demanda turística. “Há uma limitação de opções para o turista viajar. As viagens internas levam muito tempo e os custos são altos, mesmo para os estrangeiros”, diz.

Assim como a diretora do Blue Tree, Rotter destaca a amabilidade brasileira no atendimento aos turistas, em especial aos estrangeiros: “Isso deve ser cada vez mais valorizado. Nessa atividade, não adianta apenas ter um manual que ensine como atender bem. O nosso comportamento faz parte da cultura. O brasileiro é autêntico e isso deve ser valorizado”.

Na sexta-feira 7, Annie Morissey, vice-presidente de Marketing e Vendas da Atlantica Hotels, inaugurou o primeiro hotel de rede internacional em Aracaju. Segundo a executiva, a empresa pretende dividir suas apostas entre o Nordeste e o interior do País, uma região ainda inexplorada pela hotelaria internacional. “A idéia é buscar novos mercados”, explica.

Além do bom momento do turismo no Nordeste, o que também tem levado os empresários do setor a redirecionar investimentos é o fato de na década de 90 a maioria ter decidido aportar muito dos seus recursos em São Paulo. Hoje a cidade sofre com a sobrecapacidade hoteleira (incluindo a concorrência dos flats) e a taxa de ocupação está, na média, abaixo dos 50%. Sobram quartos e a solução para não ficar às moscas são as promoções.

José Ernesto Marino Neto, da consultoria hoteleira BSH International, explica que a expansão da indústria turística na Região Nordeste – e, conseqüentemente, dos hotéis – é resultado de investimentos governamentais iniciados dez anos atrás. “O turismo é uma alternativa importante para a economia de todos os estados do Nordeste”, diz Marino.

O especialista lembra, no entanto, que hoje não há uma preocupação de se ampliar o conceito de sol-areia-mar. Esse tipo de atrativo turístico, como se sabe, não é exclusividade do Brasil. Europeus e norte-americanos, por exemplo, têm opções mais próximas de seus países de origem, como o Caribe, com praias tão ou mais belas que as do Brasil.

Esse tipo de viajante, adepto ao turismo de massa, não costuma alavancar investimentos em infra-estrutura – ainda muito necessário na Região Nordeste. O consultor faz um paralelo com o que acontece nas Ilhas Canárias, “que ficam cheias de suecos e dinamarqueses enchendo a cara o dia inteiro”. Para o consultor, é preciso aproveitar melhor os diferenciais: “O Brasil tem muito mais do que é apresentado hoje. Também precisamos oferecer a nossa cultura aos turistas”.

Na direção oposta à do crescimento do desembarque de turistas estrangeiros está a tomada de recursos junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) pela indústria hoteleira. Enquanto em 2000 o banco oficial destinou R$ 32,7 milhões para empreendimentos hoteleiros no Nordeste, em 2003 o volume de recursos foi de apenas R$ 1,7 milhão. Em 2000, o BNDES emprestou para o setor (incluindo as cinco regiões do País) R$ 119,8 milhões, contra apenas R$ 40,6 milhões no ano passado. Segundo Alberto de Oliveira Constantino, chefe do Departamento de Bens de Consumo Não-Duráveis, Comércio e Serviço do BNDES, o principal motivo para a desaceleração da tomada de recursos é a situação econômica do País.

A indústria analisa de outra maneira a queda da demanda pelos recursos do banco oficial. Como muitas das redes hoteleiras em expansão são estrangeiras, acham mais vantajoso recorrer a empréstimos no exterior. Tanto é assim que no Programa de Apoio ao Turismo, lançado em 1999, foram disponibilizados R$ 500 milhões. Até 31 de dezembro de 2003, apenas R$ 245 haviam sido usados pelos tomadores.

Diante do desinteresse, a linha foi cancelada. Agora, quem quiser dinheiro para investimentos turísticos terá de entrar na fila com empresas de outros segmentos. “Não haverá problema de falta de dinheiro para o setor turístico e o prazo de pagamento poderá ser estudado caso a caso”, explica Constantino. Um financiamento normal tem prazo de pagamento de oito anos. No caso do programa para o turismo, o prazo chegava a até 12 anos.

Um dos motivos para o desinteresse da indústria do turismo pela linha de crédito do BNDES foi o fato de o setor não ter entrado na lista de excepcionalidades do Decreto 2.233 (de 23 de maio de 1999), que trata das condições de empréstimo a empresas estrangeiras. Com isso, os financiamentos de grupos estrangeiros do setor, além do reajuste pela Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), sofrem uma correção cambial. O risco de novos sustos com o câmbio, é claro, afastou os empresários.

O fato de o turismo fazer parte da lista de excepcionalidades vai no sentido oposto à decisão do governo Lula, anunciada no Plano Nacional de Turismo, de apostar no setor para gerar empregos (1,2 milhão de vagas criadas até 2007) e aumentar o ingresso de dólares no Brasil. Considerada uma prioridade para o governo, em vez de facilidades, a indústria turística, da qual faz parte a hotelaria, ganha o mesmo tratamento de outros segmentos da economia.

 

Fonte: Por Paula Pacheco http://cartacapital.terra.com.br

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